sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Quinta Etapa

5 etapa : Aumont-Aubrac/Conques  125km

 
À hora prevista, pé ante pé, fui descendo tendo em conta o cuidado a ter para não fazer barulho, por causa dos outros peregrinos como nos tinha sido pedido a quando da nossa entrada. Quando de repente atrás de mim, pumpumpumpum, o Bilou escorregou nos últimos degraus e como eram de madeira, lá se foi o silêncio tão desejado. Não houve feridos foi o mais importante.
Os dois a mesa a contas com o pequeno-almoço, quando chegou um jovem peregrino ainda ensonado, com toda a sua trouxa nos braços tudo desordenado e em muito mau estado. Tinha a moral  física e mental ao mais baixo nível.Tentei encoraja-lo, propondo-lhe que me fizesse companhia na continuação da viagem o que ele declinou alegando não saber se ia continuar. Teria os seus 30 anos, praticava boxe segundo ele e confessou nunca pensar serem tão difíceis os caminhos de Santiago em bicicleta.
No dia anterior quando confraternizava-mos com quem estava no acolhimento do gite, foi-me dito pelo responsável do mesmo, que eu deveria fazer os caminhos, pois eram muito bonitos, coisa a não perder. Seguindo o seu concelho, ainda fiz 1km mas logo voltei para traz, tal era a dificuldade devido à minha bicicleta e au terreno.

Continuei a etapa como tinha previsto e acabei por gostar imenso devido à diversidade de coisas bem bonitas que fui vendo à medida que os km eram percorridos.
 
Durante esta etapa as paragens foram constantes para consultar o meu GPS do telefone, pois haviam tantos cruzamentos sem indicações de Nasbinals, que o melhor era mesmo ter certezas. A partir de Nasbinals as indicações para Aubrac eram tantas e tamanhas que me levou a criar em mim muitas expetativas e ânsias em lá chegar.
Pois mais uma vez não passaram de expetativas goradas. Uma pequena aldeia, mesmo pequena e antiga tendo em conta as construções existentes e que mesmo asssim não me despertou curiosidade. Segui estrada fora direção Espalion.
Aqui sim… não esperava tanta beleza junta. Entrada triunfante, rio com muitos e bonitos reflexos das suas pontes antiga e moderna, outros monumentos de rara beleza. Chegamos quase em simultâneo e fomos beber um bom café juntos.




Partida para Estaing a pensar já  em Conques. Estrada com alguma circulação mas nada de grave.


Chegada a Estaing, fiquei de boca aberta encantado com esta pequena cidade medieval. Senti-me retroceder no tempo.


Peguei no meu cavalo e a pé com as rédeas na mão, fui caminhando pelas ruelas  até acordar de novo para a realidade… a bicicleta encostei-a à parede, máquina fotográfica na mão e vamos a isto.

Depois de Estang foi difícil mas tive a recompensa…
 
 
Acompanhei o rio Lot durante muito tempo no sentido descendente. Mas que maravilha de estrada (graças à informação do Sr da pizzaria de Estang, onde para lhe agradecer, comprei um bolo e uma coca), foram largos kms a grande velocidade e sem dificuldades, direção Entraygues até apanhar a D904 e mais tarde D42 para Conques.
A partir daqui, a porca começou a torcer o rabo, fiquei a saber o porquê de nunca começar subidas em bicicleta, sem ter no seu bornal os energéticos necessários para não passar o que passei. Foram 26km, 17km dos quais sempre a subir e os restantes, só muito perto de Conques eram favoráveis ao descanço.
Quando comecei a subida  acompanhei dois ciclistas, pai e filho, que mais tarde fizeram alto (tinham aspeto de conhecer muito bem a zona) e eu continuei como sempre, sozinho com os meus botões…não eram botões mas sim fechos de correr… a minha bicicleta e a minha sombra, posso-vos garantir nunca me abandonaram. Umas vezes mais brilhante e outras nem tanto e consoante as curvas da estrada,diambulava da esquerda para a direita e eu aproveitava esses momentos de proximidade para lhe lançar um sorriso de agradecimento.
O inevitável aconteceu, pedalar…pedalar…pedalar e não abastecer nem descançar. Cheguei quase ao limite das minhas forças, a bicicleta não andava como eu queria e eu sem nada para comer nem mesmo as minhas habituais uvas passas. Só água e mais água, cada minuto que passava pior ainda, tudo era longo, o tempo, os km, sentia-me extremamente frágil, mas que sofrimento sem nada nem ninguém à vista, até que. Um pequeno povoado de algumas casas, parei, abandonei a bicicleta encostada a um muro velho e procurei a pé, por um café ou mercearia onde pudesse comprar algo, estava com grandes debelidades físicas e para continuar o resto, que pensava eu não deveria ser muito, tinha que reabastecer de energias.
Mas que grande ilusão quando nos falta lucidez. Encontrei o que queria, repastei-me devidamente, bebi duas cocas e levei outra para o resto do caminho, assim como mais duas madalenas, não fosse o diabo tecelas.
Pernas ao caminho, melhor dizendo,pés nos pedais e puchando pela ginga encosta fora. Não tenho noção de quantos kms mais fiz e qual a  sua dificuldade, senti-me rejovenescer cheio de energia e mais uma vez de repente e sem contar, a surpresa foi enormemente enorme.
Mas que Maravilha das maravilhas e o retrocesso no tempo foi inevitável.

Voltava eu a cavalo mas desta vez a trote, olhando para todos os lados, descendo aquela rua  principal e única naquele sentido, com pequenas ruelas à esquerda e à direita.
Dei comigo a pôr o pé no chão pois a roda da minha bicicleta tinha resvalado numa das pedras da calçada mais saliente. Parei, desmontei, não sei se do cavalo ou da bicicleta e aqui sim, voltei ao presente.
Estava todo transpirado e com muita sede, sentei-me no exterior de um bar, onde a muito boa cerveja artesanal refrescou a minha sequeosa garganta. Parei antes do copo estar vazio por vergonha em ser visto como um goloso e verdade seja dita, o preço e o efeito que poderia causar  também tiveram a sua quota parte de responsabilidade na minha decisão. Esperei sentado que chegassem os meus invisíveis acompanhantes e voltei a pedir outra que veio prontamente e bem fresquinha. Tal  era a minha sede.
Visitamos a cidade dos encantos medievais onde se viam muitos hoteis e outras muitas lojas onde deixar os euros bem protegidos dos olhares indiscretos.
 
 
A enorme catedral fazia-se notar não pela beleza exterior mas sim pela sua imponência em relação ao resto do povoado. Mas como é possivel pensei eu, tanta beleza no meio daqueles vales e montanhas austeras e selvagens de Aubrac,  passagem incontornável dos caminhos para Santiago de Compostela.

 
Encontramos o parque de campismo à saída de Conques no sentido inverso da minha chegada, descendo até à margem do rio, o camping era muito bom.
O frio durante a noite foi mais que evidente.

 
 


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