terça-feira, 28 de março de 2017

Décima Sexta etapa

16 etapa : Monterrosso  -  Santiago de Compostela 83km


 


Bem cedo e molhado pelo ressoado da tenda, o meu acordar foi bem matinal mas não foi essa a razão principal.
Por apenas dois km esta era a etapa mais curta e a última da minha viagem. Tinha decidido terminar em Santiago muito por culpa do final da etapa do dia anterior. Fui obrigado a terminar esta minha aventura com a minha BTT, não é que ela fosse muito inferior à que me tinha levado até ali, talvez fosse mesmo o desânimo de não estar muito bem psiquicamente pelos acontecimentos anteriores.
Mais uma vez noite escura quando me fiz à estrada e como sempre independentemente das horas do dia, as respetivas luzes para ser visto eram fieis ao posto. Senti as mesmas sensações como quando atravessava Saint-Etiene e fui apoquentado. Pouca vontade em pedalar e sem forças. A bicicleta parecia que não andava, levei uma hora a fazer 10km, de Monterrosso a Palas de Rei.

Primeira paragem para o bem vindo pequeno-almoço e para ver se haviam alterações no meu comportamento físico-mental. Depois de bem repastado, dirigi-me para a bicicleta, vi alguns ciclistas e peregrinos a pé passarem num ambiente animado, mesmo muito animado e em voz com um volume bem audível.

Talvez tenha sido contagiado pela boa disposição e predisposição dos passantes e sem pensar duas vezes montei na minha bicicleta e toca a dar aos pedais. Mas que porra esta, que se passa afinal comigo hoje. Voltei a parar logo ali a apenas um punhada de km. Bebi um golo de água, não é que tivesse sede, foi o reflexo normal pela força do hábito. Olhei mais uma vez a bicicleta, uns murros na sela, duas palmadas em cada face e questionei-me em voz alta de forma que quem passa-se naquele momento e compreende-se Português  perceberia que nada estava bem comigo.
Voltei a beber mais um golo, estava triste por este mau momento e zangado comigo mesmo. Afastei-me um pouco da estrada para escuar a água às batatas e quando cheguei de novo à bicicleta, tinha os olhos em água, tenho a certeza que foi para o chão que apontei a torneira urinária.Claro que sim, eram lágrimas, estava imocionado. Porquê ? Nao sei. De cocaras com as mãos no quadro da bicicleta  deixei a emoção avançar cada vez  mais forte, quando fui interrompido por uma voz em Espanhol e senti uma mão no ombro perguntando-me se estava bem e precisava de alguma ajuda. Respondi que não e ao voltar-me não consegui olhar nos olhos aqueles dois jovens que me abordaram, preocupados comigo.

 Agradeci com voz comovida naquele momento desolador e fui limpando as lágrimas da minha cara. Uns minutos depois e muito devagar voltei a pedalar.Tanta coisa me passou pela cabeça mas nunca a vontade em ficar por ali. Pensamentos positivos começaram a ocupar o meu espírito e aos poucos fui pedalando com mais e mais vontade.
 
Continuei a cruzar-me com peregrinos voltei a desejar bom camino, a ouvir bom camino, fui passando também por alguns ciclistas que estavam consultando os seus mapas e outros pedalando e assim me fui aproximando cada vez mais da luz que via ao fundo do túnel.





É verdade que foi a mais curta de todas mas também uma das mais difíceis de levar a cabo. Foi assim até às portas de Santiago e logicamente quando cheguei à cidade… Ó grande Santiago de Compostela, obrigado pela tua companhia, pelo teu amparo e ajuda a terminar esta minha Viagem – Aventura – Convicção – Refleção.

À chegada à grande praça não consegui tirar os óculos de sol por ser conveniente esconder a minha emoção…
Fui-me aproximando da Catedral e por onde passava constatei que o mito PEREGRINO ali mesmo não passava as mesmas sensações sentidas em todo o caminho.
 


SOLIDARIEDADE PEREGRINA INEXISTENTE  os grupos entre si e cada grupo para si mesmos, concerteza reviviam os momentos passados e os peregrinos solitários no meio daquela maré humana passavam despercebidos… era cada um por si e nem um olá de boas vindas.


Como mandam as regras de bom peregrino, passar no acolhimento ao peregrino munidos do passaporte. Estavamos todos em fila para o carimbo final assim como para o   DIPLOMA OFICIAL DO PEREGRINO.
 
A minha ida a Finisterra não fêz parte da minha peregrinação em bicicleta.
14 agosto 2016 às 11h00

                           1.900km e uns pózinhos                               

FIM




 

Décima quinta etapa

15 etapa : Cacabelos  -  Monterrosso 120km





Ainda fazia noite quando comecei esta etapa, era mesmo bem cedo, penso mesmo ter sido a etapa que mais cedo comecei.
Colete refletor, luz vermelha intermitente e outra branca mais para ser visto do que para ver. O Bilou levantou-se como eu bem cedo para me levar ao ponto de partida e voltou de novo para o camping.

Como era escuro pude ver um cordão vermelho-alaranjado bem lá longe, era de tal forma forte que se viam as montanhas em penumbra, não haviam duvidas era mesmo um incêndio.

Pedalei durante 10km até chegar a Villafranca Del Bierzo onde me cruzei com duas peregrinas. A luz pública iluminava a pequena cidade ainda adormecida, uns 100m à minha frente estava um café ainda ou já aberto. Encostei a bicicleta mesmo em frente da porta do establecimento, não fosse haver problemas e sem tirar o capacete entrei. Buenos dias… buenos dias ciclista…quieres algo…sim, um café com leite e algo para comer. O empregado apresentou-me duas gordas fatias de bolo com aspeto caseiro e ainda mornas, sinal de frescura penso eu. Mas que bem me soube este pequeno-almoço.

Senhor, quero pagar a minha despesa… pagas café com leito o resto é oferta da casa. Claro que agradeci, bebi um outro café comprei mais duas madalenas de chocolate e voltei à estrada.

Começava a nascer o dia e os peregrinos eram numerosos. Os caminhos, a estrada que eu levava e a auto-estrada entrelaçavam-se entre elas como se de uma corda de sisal se tratasse, eu umas vezes à direita outras à esquerda dos peregrinos e da auto-estrada e a espaços pelos caminhos.
Feliz por ver gente, fui distribuindo buenos dias e bom camino a miúdo tal era a quantidade de gente a pé. Vi alguns em plena dificuldade de marcha, grupos bem animados e alguns muito apressados. Foi nesta parte do percurso que me cruzei com um grande número de ciclistas.
Abandonei os caminhos e de volta à estrada, recomecei na minha rotina tentando recuperar o tempo perdido. Pouco antes de chegar a Pedrafita tive uma subida interessante, uma dezena de km, voltei a passar por alguns ciclistas menos apressados.
Em Pedrafita fiz uma paragem para abastecer em calorias e açucar, pois as subidas iam-se suceder com mais frequência e a altitudes mais elevadas, isto durante largos km, antes de uma grande descida toda ela também de largos km que terminavam às portas de Sarria, cidade longilínea.

Aproveitava eu a velocidade que me dava esta descida, entre 60 e 70km/h quando de repente e sem que nada o fizesse prever ia acontecendo o irreperável.

Fui com a roda da frente fora do alcatrão, pisei o terreno macio e ao tentar puchar a bicicleta de novo para a estrada, parti por esta fora sem control a grande velocidade zig zag…esquerda e direita durante uma centena de metros até conseguir voltar de novo à minha mão, entrei pela valeta em V, fui travando e acabei por caír a 0km/h por não ter conseguido soltar os pés dos pedais a tempo.


Passou-se uma grande pausa, tive que procurar a garrafa da água e a gopro, cuspidas durante o manobra forçada e depois foi o momento de agradecer a Santiago e a mais alguém por me ter socorrido mantendo-me em boa forma física pronto a continuar o meu caminho.

 










Passei os olhos rapidamente pela bicicleta e não constatando nada de grave prossegui o meu caminho, atravessei Sarria e logo à saída da cidade começaram de novo as subidas até Portomarin a escaços 20km de Monterrosso final da etapa.



 

Chegada a Moterrosso instalei-me numa esplanada à entrada do povoado junto da estrada por onde  os dois jovens tinham que passar, o que não tardou a acontecer. Tinha apenas bebido uma canha bem fresquinha.

Levantei-me para pendurar a bicicleta e reparei na roda traseira completamente empenada de tal forma que no dia seguinte tinha que continuar até Santiago com a bicicleta suplente.

Fomos à procura do camping ali bem perto, mas que camping, foi concerteza o melhor de todos. Piscina natural, piscina artificial, mas que classe que ambiente, só vendo.


Durante mais de uma hora tive que preparar a minha bicicleta suplente antes que chega-se a noite pois havia ainda a tenda para montar, tomar banho, preparar o equipamento para o último dia e finalmente jantar antes da deita e do repouso do guerreiro.

sábado, 11 de março de 2017

Décima Quarta Etapa

14 etapa : Lèon/Cacabelos 125km

 


Quando parti do parque de campismo de Lèon levava a minha máquina preparada para fotografar o nascer do sol que me pareceu ia ser lindo.

 

 

 

 

A travessar a cidade de Lèon foi num ápice, das mais fáceis em toda a Espanha. O tráfego como em todas as outras era confuso, haviam passagens superiores e inferiores mas muito bem sinalizadas, não tive sequer um engano até chegar a Astorga.




Cidade pequena, muito bonita com um importante centro histórico onde se encontravam os pontos de interesse como a Catedral, o museu Romano e o Palácio Episcopal entre outros também de interesse.
Fiz uma paragem na parte central em frente da Catedral e bem instalado num banco de jardim pic-niquei tranquilamente e lá fui eu de novo estrada fora.




Algum tempo depois, talvez uma hora, a estrada pela qual eu pedalava era praticamente toda para mim, um ou outro carro, um ciclista apressado, deveria ter um encontro muito importante tal era o andamento que levava.
Neste jogo de sobe e desce, foram tantos que quando chegava ao alto de um vislumbrava uns quantos mais bem lá longe. Era um deserto acidentado com calor de rachar e sempre sozinho com a minha sombra e a da bicicleta, continuava eu o meu calvário debaixo dum calor ardente,sofocante.
 
Centenas de vezes repetido o gesto e desta vez como algumas mais, deixei de ter água, mas que merda esta, o apoio não vem e eu a seco logo agora neste terreno hostil sem viva alma à vista e ainda por cima não vislumbrava sequer riacho ou fonte nas redondezas.
Quanto mais pedalava mais me faltava pedalar, tal era o meu estado de fadiga, não sei se física ou psiquica. Ui tantos filmes e qual deles o pior, já nem saliva tinha para alimentar o desejo desenfreado em matar aquela secura tão forte, voltei a procurar a garrafa levei-a à boca e nada saía. Parei encostado à berma e escorrechei-a ao máximo para aproveitar algumas gotas que estavam no fundo.  
Tinha que seguir em frente, o sol era escaldante e nem sombra para me proteger. Mesmo lentamente fui pedalando de forma a não me usar muito. De repente travagem brusca com direito a marcar o alcatrão, mesmo ali ao meu lado, será que estou a ver bem ou é uma miragem, uma espécie de tanque rectângular à minha direita e à sua volta ervas verdejantes.
 Um contra senso tendo em conta toda a área de terras e serras que me rodeavam terem o tal aspeto desértico cujo único movimento de vida era o meu o da minha sombra e o das heólicas, florestas e florestas delas alinhadas e em movimento provocado pelo vento.Terra de ninguém.
Abandonei a bicicleta e mais ou menos rápido abeirei-me do retângulo de cujas paredes transbordava o precioso liquido tão desejado. À superfície uma camada de musgo ou lodo verdejante, menos onde caía a água límpida e cristalina de um tubo na parte superior do dito retângulo num pequeno pilar para o efeito.

Bebi e tornei a beber, enchi os meus bornais e preparei-me para continuar o meu caminho direção Ponferrada.  
 Ponferrada, cidade muito interessante onde enquanto esperava pelos meus dois socorristas, bem instalado numa esplanada e em frente do castelo comi uma boa pizza e bebi duas canhas.

À chegada dos dois jovens foram mais duas noutra esplanada. Depois percorremos as ruelas obtivemos o carimbo e mais duas ou três coisas.

Bicicleta pendurada e mais uma vez toca a procurar onde pernoitar. Acabamos por encontrar um camping em Villafranca Del Bierzo, praia fluvial com areia fina que mais tarde aproveitamos um pouco as condições ali presentes.

Mais uma grelhada, uma passagem curta pelo bar onde fui chamado à razão e bem por me ter estatelado como se em minha casa me encontra-se. Bom, vamos embora, descançar é preciso, boa noite e até amanhã se Deus e Santiago o permitirem.